quarta-feira, 2 de abril de 2014
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Frases como “tudo vai ficar bem” e “no fim tudo dá certo” podem parecer consoladoras a princípio, mas nem sempre são capazes de trazer paz de espírito e diminuir a ansiedade.
Em seu livro “The Antidote: Happiness for People Who Can’t Stand Positive Thinking” (“O Antídoto: Felicidade para Pessoas que não Suportam Pensamento Positivo”, sem edição no Brasil), lançado recentemente, o jornalista Oliver Burkeman mostra como uma boa dose de “pensamento negativo” pode ajudar as pessoas a não se preocupar demais com as dificuldades que virão.
“Pensar tranquilamente e em detalhes a respeito dos piores cenários possíveis pode ajudar a tirar do futuro seu poder de gerar ansiedade”, garante Burkeman.
Ele recorda o trabalho do psicoterapeuta Albert Ellis, um dos pioneiros do “caminho negativo”, que redescobriu na filosofia estoica ideias práticas para lidar com o futuro. O filósofo romano Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.), por exemplo, recomendava que quem tivesse medo de perder seus bens materiais “separasse um determinado número de dias em que se contentaria com o mínimo necessário, dizendo a si mesmo ‘essa é a condição que eu temia?’”.
Quando algum paciente lhe dizia que tinha medo de passar vergonha diante dos outros, Ellis o aconselhava a viajar no metrô de Nova York falando em voz alta o nome das estações conforme passasse por elas. Burkeman testou a ideia e, depois de alguns momentos de agonia por causa da vergonha, percebeu que não aconteceu nada demais, e que “pagar mico” não mata ninguém.

Pés no chão

A prática de pensar no pior que poderia acontecer era chamada pelos estoicos de “premeditação dos males” e, segundo Burkeman, faz contraste com o pensamento positivo, “aquele esforço para se convencer de que tudo vai ficar bem, que pode reforçar a crença de que será absolutamente terrível se não ficar”.
Ele aponta que o “culto à positividade” leva empresas estadunidenses a estabelecer metas grandes e audaciosas e incentivar os funcionários a buscá-las. “Mas o consenso pró-metas está começando a ruir”, diz. O primeiro problema que ele menciona é o encorajamento que metas rígidas demais podem gerar atitudes anti-éticas.
Burkeman cita como exemplo um estudo conduzido pela pesquisadora Lisa Ordóñez e por colegas, em que os participantes tinham que formar palavras a partir de um conjunto de letras aleatórias e informar os resultados à equipe. Aqueles que foram instruídos a atingir uma meta específica mentiram com muito mais frequência do que aqueles aos quais foi dito apenas “façam o melhor que puderem”.
Outro problema apontado pelo autor: metas podem fazer com que a pessoa se contente com resultados medíocres. “Muitos taxistas de Nova York, concluiu uma equipe de economistas, ganham menos dinheiro em dias chuvosos do que poderiam porque param de trabalhar logo que atingem o que consideram um bom lucro diário”.
De acordo com o professor de administração Christopher Kayes, da Universidade George Washington (EUA), focar em uma meta às custas de outros fatores pode distorcer uma missão corporativa ou mesmo a vida de uma pessoa. Certa vez, Kayes conversou com um executivo que lhe disse que seu objetivo era se tornar milionário aos 40 anos… e que ele conseguiu. Mas ele também estava divorciado, tinha problemas de saúde, e seus filhos não queriam mais falar com ele. O professor acredita que, por trás dessa mentalidade focada em metas, está um desconforto em relação ao sentimento de incerteza.
Em um estudo conduzido pela pesquisadora Saras Sarasvathy, da Universidade de Virgínia (EUA), foram entrevistados 45 empresários bem-sucedidos. Os resultados levam a crer que aprender a “acomodar” a incerteza pode não apenas levar a uma vida mais equilibrada, mas também ao sucesso profissional: entre os participantes, quase nenhum se apoiou em extensas pesquisas de mercado, nem traçou planos de negócio extremamente detalhados – havia uma certa tranquilidade em relação a imprevistos.
Esses empresários fizeram o que Sarasvathy chama de “efetuação”: no lugar de traçar metas e planos para atingi-las, eles avaliaram os recursos disponíveis e imaginaram os cenários possíveis, dando espaço à flexibilidade. A “efetuação” inclui também o que Sarasvathy chama de “perda acessível”: a pessoa pensa no que ela perderá se seu empreendimento for um fracasso; se puder pagar esse preço, segue em frente.
Por fim, Burkeman lembra que o maior valor do “caminho negativo” é o realismo: sempre podem acontecer imprevistos, e as coisas podem tanto dar certo como dar errado. Encarar essa realidade, ao invés de negá-la, é fundamental, especialmente porque “há fatos que mesmo os pensamentos positivos mais fortes não podem mudar". 

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